A casa é sua

Migração e hos(ti)pitalidade fora de lugar

Em busca de Ítaca

A Casa é Sua: Migração e hos(ti)pitalidade fora do lugar conta a história de um projeto de intercâmbio cultural, uma exposição e uma jornada. É uma odisseia inseparável dos acontecimentos da vida (sociais, políticos, sanitários) que a atravessaram desde o início e das camadas de relações de hospitalidade que ela desencadeou ou revelou. Está impregnada das formas exacerbadas de hostilidade que estes tempos também trouxeram à tona e que conseguiram, por força, mas inevitavelmente, penetrar a natureza sensível ao contexto deste projeto.
[Enquanto escrevo este texto, refugiados da Ucrânia fogem dos ataques da Rússia. Abrigos emergenciais estão sendo instalados na Polônia e em outros lugares para oferecer hospitalidade aos compatriotas europeus, enquanto bloqueiam a entrada de cidadãos não ucranianos que querem escapar da guerra, violando todas as leis de direitos humanos.] [01] Na tentativa de mapear as interdependências entre o subjetivo e o político e dar voz às diversas influências que levaram este projeto a evoluir, se transformar e existir dentro das realidades sociopolíticas complexas do Brasil, do Líbano e do resto do mundo hoje, este texto-mapa deve ser lido como um diário. Um diário de uma busca curatorial, mas também de vida, por um lar; em essência, por uma pátria, um habitat ou uma comunidade onde as relações com e para o outro se estendam além do humano para propor formas radicais de hospitalidade e de relações hóspede-anfitrião.
A jornada desta exposição começou em uma noite de verão, em 2017. Eu estava em Kherbet Selem, na casa da família de meu então namorado, no sul do Líbano, quando recebi uma ligação de Mani Pournaghi, diretor do Goethe-Institut em Beirute. Ele me perguntou se eu estaria disposta a embarcar em uma viagem de pesquisa curatorial ao Rio de Janeiro, um convite totalmente inesperado. (Mal sabia ele da minha história de infância carioca, exilada em Copacabana.) [02] Ele e o colega Robin Mallick, diretor do Goethe-Institut no Rio de Janeiro, queriam investigar mais a fundo uma intuição que tinham. Convenhamos que muito poucos diretores de instituições culturais semelhantes assumem riscos desse tipo… Mas eles estavam convencidos da necessidade de examinar mais a fundo as relações culturais Sul-Sul e as alianças intelectuais entre Brasil e Líbano, que já compartilhavam uma rica, porém pouco pesquisada, conexão diaspórica. Programaram a primeira viagem de pesquisa de troca transcultural e selecionaram o dramaturgo, crítico e filósofo Patrick Pessoa para ser meu companheiro de conspiração. Não esperava que fôssemos nos dar tão bem. Abrimos nossas casas um ao outro, casa sendo nossos respectivos apartamentos no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, e em Furn el Chebbak, em Beirute, mas também nosso apego apaixonado a nossas cidades e às pessoas que promovem seu fazer e seus eternos renascimentos. Permanecem memórias intensas e momentos inesquecíveis dos muitos encontros com pessoas, ideias, obras de arte, filmes e pores do sol das duas cidades que começamos a trocar, apreciar, fundir, contrastar e aproximar. [03] Essa primeira fase da pesquisa começou em 2017 e, pelo menos da perspectiva de hoje, trata-se de um passado distante. Foi antes da eleição de Bolsonaro no Brasil, da revolução de outubro de 2019 no Líbano, da hiperinflação, do colapso econômico e da crise humanitária sem precedentes que meu país presencia neste exato momento. Foi antes da Covid-19, que transformou nossos vizinhos em outros com potencial de nos contaminar e nossos espaços domésticos em fortalezas de proteção, exacerbando as desigualdades de classe, gênero e etnia que já existiam e fechando mais fronteiras nacionais e ideológicas.
A intuição que foi nosso ponto de partida consistia em fazer um exame crítico da narrativa fantasiosa da migração libanesa para o Brasil, que, até hoje, tem sido perigosamente celebrada como o mais perfeito exemplo da hospitalidade de um país de recursos e generosidade infinitos, onde mascates e comerciantes árabes se integraram sem qualquer tensão, contribuindo para o desenvolvimento econômico e político e as tradições culinárias do Brasil e para sua mestiçagem multicultural sincrética. De fato, sabemos que existem pelo menos três vezes mais pessoas de ascendência libanesa no Brasil do que no Líbano e que o Brasil abriga a maior diáspora árabe (principalmente do Levante: Líbano, Síria e Palestina) do mundo. E, então, aí está. Não chega nem perto disso… [04]

Capítulo 1 | Desconstruindo o orientalismo brasileiro

Esta primeira parte da minha pesquisa, a histórica, levou a um entendimento melhor (e menos idílico) das diferentes ondas dessa migração, revelando olhares críticos sobre o orientalismo brasileiro em pesquisas não traduzidas (Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto), bem como investigações sociológicas mais aprofundadas sobre as influências dos árabes na cultura brasileira. [05] O estudo de John Tofik Karam sobre dança do ventre inspirou A Casa é Sua a encomendar um vídeo ao artista libanês Ahmad Ghossein, Rehearsing with Shahrazad (Ensaiando com Shahrazad), em que a dançarina de origem libanesa Naima Yazbek dá uma oficina de dança do ventre para um grupo de mulheres acostumadas a se movimentar ao som de ritmos brasileiros.
A migração libanesa no Brasil é unilateral, com poucos retornando à terra natal, [06] e a história está repleta de mitos e lendas populares, uma das quais desperta um interessante particular para nossa investigação sobre hospitalidade: a do último imperador do Brasil, Dom Pedro II. Diz a lenda que, em uma de suas muitas viagens ao Oriente Médio, na década de 1870, ele próprio implorou aos camponeses do Vale do Bekaa que abandonassem suas terras áridas por outras mais exuberantes, prometendo fertilidade e abundância nos trópicos. [07] A verdade é que essa migração foi desencadeada pelas dificuldades que forçaram os libaneses ao exílio desde a década de 1860: a invasão de gafanhotos, que acabou com toda a vegetação em 1915, matando de fome um terço da população e aumentando a perseguição e expropriação econômica alimentada pelo Império Otomano e pelas tensões religiosas dos anos 1950. [08] A situação piorou ainda mais durante a Guerra Civil do Líbano, que durou quinze anos (1975 a 1990), seguida da guerra entre Israel e o Hezbollah, em 2006, durante a qual comunidades inteiras fugiram em busca de um lar mais seguro. Em seu filme Tcharafna, o artista paulista Gui Mohallem desconstrói e poetiza memórias fantasiadas do Líbano, terra natal de seu pai; enquanto Ayla Hibri, em sua primeira viagem ao Brasil, testemunha a integração cultural da maior diáspora libanesa com suas fotografias romantizadas.
Hoje, o Líbano assiste a um êxodo em massa, mais uma vez perdendo profusamente sua população, que parte em busca de melhores condições de vida. Um governo corrupto não só confiscou as economias de uma vida inteira da população com o controle do capital, permitindo uma queda livre da moeda local sem precedentes no mundo, mas também tirou vidas de forma vergonhosa, por pura negligência: 2.750 toneladas de nitrato de amônio armazenadas em um galpão esquecido no porto explodiram e destruíram uma cidade em um piscar de olhos, em 4 de agosto de 2020. [09] O cotidiano tornou-se insuportável em uma nação sufocante: o salário mínimo despencou de US$ 450 em 2019 para US$ 72 em 2022, sumindo com necessidades básicas, desde eletricidade e combustível a comida, medicamentos e internet. O consulado brasileiro em Beirute recebe enxurradas de pedidos de visto desde 2020 e, assim, mais uma vez testemunhamos uma onda de migrantes libaneses, que preferem enfrentar a pandemia avassaladora no Brasil do que permanecer no Líbano, juntando-se a parentes mais velhos de gerações anteriores de migrantes.

Capítulo 2 | Parênteses: A Mãe Terra como anfitriã suprema

Os guaranis, povos indígenas do Brasil, sugerem escutar a história do outro. Como forma de iniciar uma amizade com o reconhecimento das diferenças entre si, por tradição, procuram palmitos no chão junto com o hóspede, conta Sandra Benites, curadora de ascendência guarani. Para os guaranis, a anfitriã suprema é a Mãe Terra. Esse exemplo de receptividade à alteridade dos indígenas, apesar de terem sido escravizados à exaustão, pode ser visto ao observarmos de perto a vida de Ehuana Yaira e sua família através do olhar feminino de Louise Botkay, sua hóspede no coração da floresta. Um filme para Ehuana está em exibição como parte da programação cinematográfica da exposição.

Capítulo 3 | Hospitalidade institucionalizada

As residências no mundo artístico são lugares excepcionais, onde as tensões entre hóspede e anfitrião realmente entram em ação. Não é, portanto, por acaso que este projeto foi pontuado por uma série delas, tanto curatoriais como artísticas, sejam residências que organizei ou que receberam a mim e ao projeto.
No início de 2018, a Delfina Foundation, em Londres, me convidou para a segunda fase de pesquisa desta exposição. A poucas quadras do palácio da rainha da Inglaterra, almoços comunitários (um formato curatorial institucional de hospitalidade, que cumpre um papel essencial em um programa de residência praticamente baseado em networking) preparados pelas mãos cuidadosas de Poppy encheram as agendas dos residentes e foram fundamentais para conhecer aliados brasileiros em Londres, como os artistas Tonico Lemos Auad, Alexandre Canonico e a curadora independente Kiki Mazzucchelli, entre outros. [10] Foi durante uma dessas refeições na Delfina que o diretor da Fundação, Aaron Cezar, me apresentou à colecionadora incansável Frances Reynolds, que, alguns meses depois, generosamente me hospedou com o artista Ahmad Ghossein em sua casa no Jardim Botânico para uma residência de um mês no Rio de Janeiro como parte do programa de residência do Instituto Inclusartiz. [11] Foi durante esse período que a investigação de Ghossein sobre dança do ventre começou, pois estabeleceu o primeiro contato com John Tofik Karam, autor de um artigo acadêmico sobre dança do ventre no Brasil. A residência permitiu uma imersão profunda nos arquivos locais, inclusive o do Museu da Imigração, em São Paulo, onde reunimos cartas escritas pelos primeiros migrantes libaneses que chegaram ao Brasil.
A residência no International Studio & Curatorial Program (ISCP), em 2019, me levou a um lugar muito diferente, Nova York, mas continuei na mesma linha de pesquisa. Foi quando fiz a curadoria de Living Room: Use It Together (Sala: usem juntos), experimento curatorial e exposição que transformou o hall de entrada da instituição em um lugar de hospitalidade por meio das obras de residentes do ISCP e de artistas de arte socialmente engajada com quem eu tinha relação. Todos os elementos aparentemente domésticos que constituíam a exposição tinham uma dupla ontologia: eram obras das quais o fator da arte fora removido ou às quais o valor de uso fora restituído, para que pudessem atender a uma potencial função.
A explosão devastadora do porto de Beirute e uma série de tragédias aconteceram no ano seguinte, afetando profundamente minha vida pessoal e profissional. Com o mundo estagnado, reagi da única maneira que sei fazer, abrindo, de forma orgânica e contextual, o que acabou sendo o primeiro capítulo desta exposição: uma residência de ajuda emergencial em Boiçucanga, em colaboração com a Kaaysá, em outubro de 2020. Como gesto radical de hospitalidade, A Casa é Sua: Práticas radicais de cuidado e hospitalidade transportou e acolheu, do Líbano para os trópicos, sete artistas impactados pela explosão e necessitados de um refúgio seguro para se recuperarem tanto física quanto psicologicamente. A própria fundadora da Kaaysá, Lourdina Rabieh, era imigrante libanesa; sua família chegou a São Paulo durante a guerra do Líbano, nos anos 1970. Uma das poucas pessoas a desenvolver sua história migrante, ela busca fomentar suas raízes, desenvolvendo conexões culturais por meio da galeria de arte que fundou em São Paulo e, depois, com esse espaço de residência que aninhou no coração da Mata Atlântica, no vilarejo de pescadores de Boiçucanga. [12] Lara Tabet, Nour Osseiran, Omar Mismar, Maxime Hourani, Betty Ketchedjian, Panos Aprahamian e Nour Sokhon pousaram em 9 de outubro de 2020 no aeroporto relativamente vazio de São Paulo, em meio a determinações e fechamentos de fronteiras em decorrência da Covid. O risco que correram ao embarcarem nessa viagem foi imenso; não havia certezas. O acesso a dinheiro no exterior por meio de cartões de crédito era impossível (devido ao controle de capital em curso no Líbano), não havia garantias de que as fronteiras permaneceriam abertas até o final da viagem, sem contar a complexa administração de um programa inteiro de hóspedes do exterior e de atividades de ajuda emergencial com a ameaça iminente de contaminação coletiva pelo vírus pairando sobre nós.
Mas tudo o que importava nesse tempo juntos na floresta era o cuidado, mesmo em meio a tantas adversidades. O cuidado com os outros, o cuidado com e da natureza. O transtorno do estresse pós-traumático foi tratado com alimento, sono e acesso a psicanalistas. Trabalhos foram produzidos, conversas fluíram e refeições foram preparadas, tudo alinhado em torno de escutar uns aos outros e a nossos hóspedes. [13]

Capítulo 4 | Aliados em Leipzig

O encontro com Beatrice von Bismarck, curadora e acadêmica que admiro por ter promovido a pauta da produção do conhecimento no campo da curadoria, certamente foi fundamental. Era uma noite quente em Beirute, na primavera de 2018, quando jantamos juntas em um restaurante armênio que não existe mais. Ela era professora visitante na Universidade Americana de Beirute na época, mas, acima de tudo, fundadora do programa Cultures of the Curatorial (Culturas da Curadoria) na Academia de Belas Artes em Leipzig, e seu compromisso com uma educação crítica na curadoria sempre foi uma grande inspiração para mim. Beatrice e o colega Benjamin Meyer-Krahmer editaram uma publicação de referência sobre hospitalidade em situações curatoriais que foi e continua sendo de grande importância na área, assim como o programa. Um ano após nosso primeiro encontro em Beirute, nos reunimos novamente no Brasil com um grupo de alunos de Leipzig para uma viagem de pesquisa que tive o imenso prazer de acompanhar no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brumadinho (Inhotim). Depois de muita interação e inúmeras trocas, a visita culminou em uma mesa-redonda no Parque Lage, no Rio de Janeiro. Inspirada pelos temas que estava abordando em minha jornada durante (ou para) A Casa é Sua, Strangers in your own country (Estranhos no próprio país), reuniu as vozes de curadores, artistas e colaboradores do projeto para debater as atuais experiências de estranhamento em relação à chamada “terra natal”. A investigação encomendada a Franziska Pierwoss da história da migração alemã no Brasil traduz esses sentimentos de ruptura por meio da dimensão política da culinária. [14]

Capítulo 5 | O corpo de frutificação, uma revolução em si

17 de outubro de 2019. Estou no Rio de Janeiro e consegui voo para Beirute chegando no dia 19. Há uma Revolução. Eu esperara por esse momento desde que conseguia me lembrar. Acabaremos finalmente com a oligarquia corrupta que nos governa?
Nunca havia sentido uma energia parecida; meu corpo e minha alma se expandindo para se unir a mais de um milhão de pessoas que saíram às ruas em todo o país. Havia esperança. O que veio depois foi e ainda é um cenário fatídico e inesperado, que jogou o Líbano em uma escuridão total e implacável. Mas quero acreditar que a revolução não acabou. Nas palavras de Rebecca Solnit, a revolução é como um cogumelo: “O que chamamos de cogumelos, os micologistas chamam de corpo de frutificação do fungo maior e menos visível. Revoltas e revoluções com frequência são consideradas espontâneas, mas a organização e o trabalho de base de longo prazo e menos visíveis – ou trabalho de resistência – muitas vezes estabeleceram os alicerces.” [15] Nossa revolução tomou uma forma diferente e é apenas uma questão de tempo; confiar no desconhecido é importante no processo de gestos radicais, da mesma forma que Vamos comer uma tâmara no Saara?, obra pública site specific comissionada a Marcos Chaves, consiste em plantar uma tamareira migrante com a promessa de que esse elemento estranho ao ecossistema dará tâmaras para as gerações futuras.

Capítulo 6 | O vírus, esse organismo estranho

A Casa é Sua abriria em 20 de abril de 2020. Em 13 de março, foi anunciado que o vírus havia chegado ao Brasil vindo da Europa. Marssares e eu estávamos no metrô do Rio de Janeiro, indo para um concerto no Teatro Municipal, na Cinelândia, quando recebemos a notícia do cancelamento da apresentação. Isso se passava algumas semanas depois de minha primeira experiência de carnaval, uma experiência carnal comparável às semanas em que estive nas ruas durante a revolução em Beirute. Dançar e suar juntos, celebrando a vida e a música, passou a ser totalmente proibido da noite para o dia. O outro tornou-se um perigo; seus fluidos e respiração, uma ameaça de morte. A casa transformou-se em lugar de confinamento, onde hóspedes não eram bem-vindos e a única campainha que tocava era para anunciar a chegada do entregador. (Essas emoções simultâneas de expectativa e ameaça experimentadas quando a campainha toca podem ser exploradas na obra comissionada a Omar Mismar, Mundane Sparkles (Centelhas do cotidiano). No Brasil, o presidente negou a pandemia, mas a distinção de classes nas práticas do espaço exterior foi cruel e impiedosa. Iniciava-se uma forma silenciosa de genocídio, pois o outro tornou-se ainda mais vulnerável pela subjugação de classe e pela dependência do trabalho na rua. Os povos indígenas foram atingidos, assim como nossa floresta nativa, a Amazônia, desmatada em silêncio e com brutalidade, enquanto os meios de comunicação focavam no vírus (Gabriela Bettini faz referência a essa exploração dos recursos naturais com suas paisagens trágicas em Pernambuco/San Rafael de las Flores e Pernambuco/Maranhão). Em outros lugares, as hostilidades contra grupos sociais já discriminados também aumentaram. O assassinato de George Floyd, nos EUA, desencadeou o movimento contra a normalização da morte de negros pela polícia no Brasil. Em 2021, oitocentas pessoas foram mortas em operações policiais em nove meses em comunidades carentes de cidades do estado do Rio de Janeiro. Essas questões de identidade, raça, injustiça e representação emergem na obra de No Martins, denunciando esse abuso contínuo sofrido pela comunidade negra. No Oriente Médio, o ataque a Gaza, em maio de 2021, é simplesmente uma síntese da Nakba – literalmente, “A Catástrofe” – na Palestina ocupada, uma calamidade em curso desde 1948, pela qual o hóspede não convidado, ou seja, o colonizador, continua expropriando os palestinos com violência e impunidade. A obra de Khalil Rabah, Bem vimdo Vila Nova Palestina, refere-se a um acampamento em São Paulo ocupado por 7 mil brasileiros desalojados, estabelecido em 2014, marcando a globalização da condição dos campos palestinos além de fronteiras e nações.

Capítulo 7 | Posso te oferecer um copo d’água?

Nesses meses de muito silêncio, o número de moradores em situação de rua aumentou dramaticamente em grandes cidades como o Rio de Janeiro. O bairro da Glória e o Centro da cidade não ficaram desertos, mas sim cheios de desabrigados. Coletivos de arte como o OPAVIVARÁ!, cujas práticas se baseiam em processos relacionais e experiências coletivas, estavam parados. Bem comum, obra comissionada ao OPAVIVARÁ!, nasceu de uma conversa sobre a precariedade de artistas em lugares como o Brasil ou o Líbano durante essas crises, bem como o agravamento da situação dos desabrigados em tempos de necessário confinamento em casa. Encontrando agora seu lar no pátio do Paço Imperial durante a exposição, a intervenção se materializou como fonte pública móvel, percorrendo as ruas do Centro do Rio de Janeiro e distribuindo água aos moradores em situação de rua ao longo do caminho de fontes inativadas, como o Chafariz do Mestre Valentim. [16]

Capítulo 8 | Aos 4 anos de idade, eu era fã de Xuxa

A jornada que levou a esta exposição durou quase seis anos desde a primeira viagem de pesquisa curatorial ao Brasil. Enquanto eu administrava o complexo processo de desenvolvimento deste projeto, o Rio de Janeiro, sem alarde, se tornou a minha casa, me envolvendo gentilmente em abraços e redes de solidariedade e afinidade. Isso reavivou memórias de meu corpo como criança exilada durante a Guerra Civil da Líbia, em 1989, e, em retrospecto, todo o trabalho, pesquisa e intervenções foram, sem que eu me desse conta, influenciados por minha história familiar; uma história de migração de Zahlé, no Vale do Bekaa, no Líbano, para o Brasil, na década de 1950. Os seis irmãos e irmãs de minha avó – Ibrahim, Jean, Joseph, Eugénie, Yvonne e Rose – saíram do Líbano nos anos 1950 e o tio Jean foi o primeiro a se fixar no Brasil, seguido depois pelos outros (exceto minha avó). Ibrahim foi para a Argentina e muitos nunca o conheceram.
Os tios e tias de meu pai nos receberam de braços abertos no ano em que deixamos o abrigo em Beirute para fazer a angustiante travessia de barco durante a Guerra Civil. Chegamos à ilha de Chipre, antes de embarcar no avião para o Rio de Janeiro, vindos de Frankfurt, onde pedimos os vistos. [17] Eu tinha 4 anos de idade. Fomos morar em Copacabana e íamos a Teresópolis com frequência. Tenho poucas memórias dessa época, mas lembro que era fã de Xuxa. [18] Mal sabia eu que o Brasil seria a primeira de muitas viagens de tentativa de exílio; sem perceber as memórias inexoráveis que essas travessias traumáticas deixam em nosso corpo e em nossa alma, na língua, nas traduções; como elas viriam a influenciar minha língua materna e meu relacionamento com a terra natal. Bouchra Khalili, Rayyane Tabet e Laura Lima abordam com habilidade línguas maternas, tradução e o corpo humano como formas de estender a hospitalidade em suas respectivas obras, Speeches – Chapter 1: Mother Tongue (Falas – Capítulo 1: Língua materna), Sósia e Cadeiras de rodas, amplificando essas experiências isoladas, porém compartilhadas, de estranhamento.
Conforme escrevo isso, meu bebê está chutando na minha barriga. Há oito meses, meu corpo vem se transformando para se tornar um lar, crescendo a cada dia para acolher um (outro) ser; mais uma jornada fascinante da dinâmica hóspede-anfitrião de outro ponto de vista. [19] E a jornada não termina aqui.
Desde o início, A Casa é Sua: Migração e hos(ti)pitalidade fora do lugar foi concebida como exposição itinerante; um projeto de longo prazo, composto por diferentes fases que se desenvolvem em diferentes lugares, com uma seleção de obras centrais e constantes ​​que viajam e são instaladas temporariamente ao lado de obras específicas para a cidade em questão. Apesar do caráter internacional da exposição, todas as obras foram produzidas localmente ou transportadas pessoalmente por indivíduos no país, evitando os custos das gigantes do transporte internacional. É um projeto curatorial de uma vida, que espero que seja constantemente reativado; seu discurso, ampliado, e suas ações, adaptadas para abordar temas de natureza social, política ou subjetiva específicos ao contexto da tensão hóspede-anfitrião, assim como a obra de Daniel Steegmann Mangrané, Morfogenesis-Cripsis, nos lembra que corpos estranhos e o contato com eles podem ser usados para construir um lar se a pessoa abrir espaço para hospedá-los e depender deles. A “adaptabilidade” do formato não foi pensada para ser uma mera metodologia curatorial experimental – o que, aliás, se enquadra no tema da exposição ao adotar a posição do “bom” hóspede –, mas foi também um meio de nos ajustarmos continuamente aos muitos impedimentos financeiros, institucionais e políticos intrínsecos ao trabalho no campo das artes e da cultura no Sul Global. Isso evoca os exercícios esculturais de Alexandre Canonico, que aludem à fragilidade e à dependência – portanto, à adaptabilidade – de matérias e formas de outro modo incompatíveis.
A instituição que abriga a exposição, o Paço Imperial – uma construção emblemática da história do Rio de Janeiro, onde reis do período colonial fixaram residência, sentindo-se em casa – é também o local em que foi assinada a Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil (a obra de Arjan Martins comunica essa história de colonização e escravidão do ponto de vista dos oprimidos). De certa forma concebida tanto como anfitriã quanto como hóspede, a exposição A Casa é Sua convida o público a transformar seu espaço em lar temporário, onde afeto e relações possibilitam o surgimento de imaginários e gestos radicais; onde desejos por quilombos e pela convivência com o outro se manifestam.
Com imensa gratidão às pessoas que me acompanharam durante esta jornada e com quem compartilhei conversas, refeições, samba, forró, uma revolução e inúmeras outras coisas.

Amanda Abi Khalil, Rio de Janeiro, 2022

Referências bibliográficas:
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SCHWARZ, Roberto. Misplaced Ideas: Essays on Brazilian Culture (Critical Studies in Latin American and Iberian Culture). Londres: Verso, 1992.

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