Adolfo Montejo Navas

MENU

DAS SERVIDÕES QUE NOS MATAM
Marisa Flórido Cesar

Menu: do francês via latim, minutus, miúdo, designa, desde o século 18, a relação minuciosa dos pratos a servir numa refeição e a folha de papel em que está escrita.
Boia: do latim, de bovis, boi, a “tala de couro” que controlava os condenados a trabalhos forçados nas galés. A extrema penúria levaria, todavia, homens livres a se tornarem remadores nessas embarcações em troca apenas de comida. Eram chamados de “banaboias” (do castelhano buenaboya, “remador voluntário das galés”), palavra que logo se tornaria sinônimo de tolo. Boia como comida, como rango, que usamos pelos grotões deste país, vem provavelmente daí.
Menu (2018-2021) intitula a exposição de Adolfo Montejo Navas e a instalação principal em torno da qual orbitam outros trabalhos. Uma mesa com talheres dourados e pratos de marmita instalada no Terreirinho, espaço que outrora abrigou os cavalos e as carruagens do Império, a força de trabalho animal e as diligências hierárquicas, os comensais das cortes europeias e os corpos-propriedade famélicos da colônia.
Uma disparidade ontológica entre pessoas (com direitos e propriedades) e coisas (os que, ao desamparo do Estado, são objetivados e excluídos da própria humanidade) que ainda permanece implacável nas ruas miseráveis destas cidades, na dizimação dos povos das florestas que ardem, nas falas de ministros que sugerem, a fim de saciar a fome que assola impiedosamente o país, dar os restos que sobram dos pratos dos mais ricos. Uma distinção entre vidas enlutáveis e vidas pelas quais não se chora.
Menu, a exposição, traz assim uma constelação de trabalhos que gravitam em torno da junção perversa entre a matriz colonial brasileira – patriarcal, escravocrata, racista, segregacionista – e o neoliberalismo mais voraz e predatório que, associado a um estado cada vez mais autoritário, investe na precarização ainda mais impiedosa da vida e na concentração exponencial de renda.
Ex-libris (Equações) (2018/2021) é um conjunto de dípticos de livros, que coloca tal junção entre nossa herança colonial e o sequestro de um porvir solidário pelo capitalismo neoliberal, que se escancara na pandemia, em termos de equações trágico-poéticas, cujas equidades e incógnitas permanecem em aberto. Se Ex libris é a vinheta que indica a propriedade de um livro, tais pares trazem um mútuo pertencimento temático por afinidades complementares ou antitéticas. [Gilberto Freyre – Casa Grande & Senzala versus Jonathan Swift – Instruções para os criados ou Elias Canetti – Sobre a morte versus Achille Mbembe – Necropolítica].
Como entender as correspondências entre as formas de subjetividade de herança colonial e aquelas produzidas pela capitalismo neoliberal, globalizado e financeiro que aqui ganha contornos mais autoritários? Idos de março (Contracelebração) (2021) é um livro-objeto que traz uma ferradura como peso que mantém a página aberta no mapa do Brasil colônia. Mais do que a referência expressa no título, a contracelebração do aniversário do da tomada de poder em 64, é a dificuldade histórica de virarmos a página e insistirmos no retorno de nossas opressões e servidões.

Como se tocam, se perpetuam, se precipitam mutuamente em meio a esta hecatombe sanitária, social e econômica sem que se despertem os afetos solidários e as reciprocidades que instam os laços sociais? Flagelo agudizado pela pandemia do coronavírus, pois das periferias do mundo-capital, são os povos vulneráveis, os mais afetados. E foi porque a máquina capitalista não poderia parar, que chefes de Estado a definiram como uma gripe qualquer, e convocaram seus povos ao sacrifício, a desrespeitar os cuidados sanitários (como o isolamento social e a máscara), conduzindo uma gestão desastrosa e mortal no combate à pandemia. Tão aterrorizante quanto o acirramento das desigualdades e a volta da fome, quanto um Estado que abdica de sua função protetora do “fazer viver” para apenas “deixar morrer”, é perceber que a indiferença e o desprezo pelo outro se enraízam como afeto social basilar.
Totem é um símbolo sagrado de um grupo social, de um ancestral ou divindade protetora. Totem (2018), de Navas, é uma máquina de contar dinheiro, ativada, mas sem notas, acompanhada de seu som de base, como o ritmo mântrico do Mamom ao qual servirmos. O som hipnótico da contagem de cédulas que não vemos, como um deus invisível, invade nossos corpos e sensibilidades.
É preciso então compreender alguns dispositivos que se tornam centrais no mundo produzido pelo capital financeiro, na velocidade das redes eletrônicas, na transformação nas formas de produção, na disputa pelas visibilidades e afetos: a dívida e as mídias. Vasos comunicantes, I e II (2021), como a escultura de funis de vidro que guardam papel jornal e dinheiro, são metáforas visuais desses sistemas de poder, de suas ligações ocultas, de seus mecanismos de controle intrincados, de suas plataformas de negócios subterrâneas.
O capitalismo neoliberal, financeiro, é um sistema de crédito e endividamento perpétuo. A produção sai das fábricas para explorar todo o campo da vida; o tempo do trabalho, antes concentrado em turnos, expande-se para o tempo da vida e os torna indistintos; a acumulação baseada no lucro e na exploração da força de trabalho, volta-se também à renda e à especulação da dívida; às relações hierárquicas entre o dono dos meios de produção e o trabalhador, vêm se somar às de credor/devedor. A dívida torna-se o dispositivo central de poder, sobretudo moral, porque gera uma consciência sempre culpada. Ela molda as subjetividades e os ritmos, controla o tempo da vida, não apenas como tempo de trabalho, mas porque opera por antecipação na forma do crédito-dívida, asfixiando o porvir. É um dispositivo muito mais abstrato, invisível e insidioso. Incide de modo tão ardiloso e fantasmático como as mídias, as tradicionais e novas, que travam nas telas uma guerra assistida, em que a gestão emocional das massas torna-se a principal artilharia. Uma vigilância que converte os rastros deixados nas redes em dados a serem vendidos: gostos, sensibilidades, comportamentos. Uma vigilância disseminada e interiorizada: todos vigiam todos, das potências políticas ou empresariais, ao vizinho ao lado. Enquanto isso, as grandes fortunas mundiais se concentram doravante com os banqueiros e os donos das mídias de comunicação.

Em Poema visual do I (2016), os tentáculos de uma Medusa estilizada finalizam nas siglas dos impostos que pagamos, salvo o IFG (Imposto sobre Grandes Fortunas) ,que inexiste em nosso sistema tributário. Se a dívida é o dispositivo moral de poder, aos mais pobres são transferidas as responsabilidades da dívida pública. São eles que pagam, proporcionalmente, muito mais impostos. Entre a culpa e a miséria, nossa potência vital e imaginativa é esvaziada. E permanecemos paralisados e passivos diante da hipnose medusante que nos rouba a capacidade de sonhar.
O que fazer de nossas misérias, deste agora intolerável demais, irrespirável demais, extenuante demais? Que lugar a arte e a poesia ocupam neste des-astre, neste abandono dos astros? Lockdown (2021) é uma série de poemas visuais, em que as letras, ainda que encerradas nas páginas e reféns de seus limites, coreografam danças combinatórias produzindo choques entre sinais gráficos e sonoros e seus sentidos semânticos. Liberdade no poema não é propriedade sem responsabilidade com o outro (discurso do individualismo empreendedor neoliberal) mas liberar a vida daquilo que a aprisiona, descobrir outros sentidos, outras potências e outras formas de vida. Ou Outra música (2021), em que o pão que nos alimenta é o corpo de um violino à espera que o arco – a arte, o poema, a música – nos desperte das servidões que nos matam.

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
Terça à sábado e feriados das 12h às 17h
Entrada Franca
 
A temperatura dos visitantes será aferida, o uso de máscara é obrigatório durante a permanência no Paço Imperial e o fluxo de visitantes em todos os ambientes será monitorado para garantir o distanciamento recomendado de 2 (dois metros).

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h