Arthur Scovino

Lágrimas de Nossa Senhora
Curadoria: Marcelo Campos

Lágrimas de Nossa Senhora
Marcelo Campos

O céu pode sempre nos mandar as mensagens que precisamos. Contudo, a conexão só será alcançada com o corpo em meditação, em oração, em canto, no instante exato, “no ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico”, como nos versos do poeta. A água da chuva desce, banha, preenche, mas no instante seguinte se escoa e segue seu caminho. No instante seguinte o tempo abre e o sol reaparece.
Como fazer ressoar o som que vem dos céus? Som que atinge a superfície da pele e adentra até a mais oculta entranha do espírito. O que fazer com os sinais? Arthur Scovino acredita na força desse encontro, entre corpo e espírito, que se provou tão essencial nesse período pandêmico. A ave-maria de Schubert é assoviada pelo artista. Só a partir disso se pode existir no mundo. Esse encontro existe no seu estado de maior solidão, quando se entra em contato com a natureza ou com qualquer outro lugar. Esse encontro se dá na conexão que toca a área mais extensa da cultura, nas orações, nas procissões, e ativa a capacidade da comunhão. Ritos, ícones, personagens, crenças são os elementos de interesse de Scovino. O som é reza e o cântico sagrado está gravado por ícones da Música Popular Brasileira, como nos sambas “em feitio de oração”, nas palavras de Noel Rosa interpretadas por Aracy de Almeida e Dalva de Oliveira. Arthur Scovino, assim, se dedica a pesquisar as capas de disco da MPB, hábito, talvez, deflagrado por uma série de exposições que ocuparam este espaço do Paço Imperial. Com isso, o artista promove outras comunhões, entre catolicismo e ritos afro-brasileiros, atravessadas por orações diárias que se misturam a canções ouvidas em rádios e vitrolas. Essas filosofias nos demonstram, como na canção “Um índio”, de Caetano Veloso, que o passado originário do Brasil é mais avançado “que a mais avançada das tecnologias”.
Dessas procuras nasce Lágrimas de Nossa Senhora, exposição reencarnada no corpo do artista, em desenhos e objetos de convivência e conexões diárias, em pesquisas de campo levadas a cabo em distintos lugares do Brasil. O choro-oração de Arthur Scovino se impôs enquanto materialização humana da mensagem recebida pelo índio da canção de Caetano, pela entidade que há tempos procuramos ver. A lágrima, essa fração elementar da dor, aqui pode ser costurada nas contas do rosário sincrético. Dentro de seu drama cristalizado, é possível construir grandes linhas de contos, grandes percursos que nos levam a outro lugar transcendente, possivelmente ao óbvio. Cada nó, um conto, cada canto, uma reza, cada conto, um encontro.

Paço Imperial
Praça XV de Novembro, 48
Centro - Rio de Janeiro
55 21 2215 2093
 
Terça à sábado e feriados das 12h às 17h
Entrada Franca
 
A temperatura dos visitantes será aferida, o uso de máscara é obrigatório durante a permanência no Paço Imperial e o fluxo de visitantes em todos os ambientes será monitorado para garantir o distanciamento recomendado de 2 (dois metros).

Bistrô do Paço
De segunda a sexta, das 11h às 19h30
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 19h
 
Restaurante Arlequim
De segunda a sexta, das 10h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h