Um olhar coletivo na formação de uma coleção de arte pública
O projeto NORDESTE EXPANDIDO: estratégias de (ré) existir volta-se para a produção das artes visuais dos estados que compõem a área de atuação do Banco do Nordeste, buscando evidenciar a potência da diversidade e as múltiplas formas de afirmação da vida. A curadoria geral contou com a participação de Jacqueline Medeiros, auxiliada por Cecília Galindo, em parceria com curadores locais, culminando em exposições realizadas em todas as capitais nordestinas, além de Montes Claros (MG) e Vitória (ES).
Propor uma coleção para o BNB significa assumir como princípio a representatividade de toda a sua área de atuação, incluindo uma atenção especial à produção artística das cidades do interior da região. Nesse sentido, o projeto buscou reduzir as diferenças quantitativas de artistas por estado dentro da Coleção. A partir da análise do acervo já existente, foram selecionados tanto artistas históricos quanto nomes da produção contemporânea, reconhecendo a pluralidade da região em contraponto à ideia muitas vezes engessada de uma identidade homogênea. A escolha das obras privilegiou conjuntos capazes de estabelecer diálogos múltiplos e plurais.
Pensar em “Nordestes” é partir, antes de tudo, de um território movente, múltiplo e diverso. À medida que as obras foram incorporadas, novas camadas de realidade também passaram a integrar a coleção do Banco.
O projeto esteve sempre vinculado aos processos curatoriais de cada estado, o que conferiu singularidade a cada etapa e reforçou a complexidade do seu contexto geral.
Não houve preferência por técnicas ou estéticas específicas. Ainda assim, a pintura aparece de forma predominante, como um campo aberto de disputas de visualidades, linguagens, experiências de vida, intimidades e cotidianos, criando léxicos próprios para compreender o mundo a partir de si e, assim, conectar-se a ele. Também se destaca a atuação desses artistas em seus territórios afetivos e simbólicos, ao mesmo tempo em que se apropriam da iconografia clássica da arte e de técnicas tradicionais — como a tinta a óleo e o verniz — ressignificando-as no presente.
Popular e contemporâneo coexistem sem hierarquias, cronologias rígidas ou segmentações sociais, raciais e étnicas. A proposta curatorial busca subverter as persistentes hierarquizações da História da Arte, ainda presentes em diferentes esferas do sistema artístico, aproximando os trabalhos por afinidades poéticas, entre harmonias e tensões.
As obras estão organizadas em quatro núcleos inspirados na poética de músicas de autores da região a saber:. Este coco é feito com palmas de mão, do Coco Raízes de Arcoverde, reúne trabalhos ligados às crenças, culturas, saberes e tradições, evocando uma descendência cuja essência é a coletividade. Tocando em frente o chão da canção, de Gal Costa e Caetano Veloso, aborda os contornos políticos e sociais dos corpos, suas subjetividades, manifestações e rupturas. Galos, Noites e Quintais, do cearense Belchior, atravessa as memórias de quem migrou do campo para a cidade, entre desafios e esperanças. Já De chapéu e sol aberto, do compositor pernambucano Capiba, apresenta os olhares dos artistas sobre as paisagens de um Nordeste expandido, tanto geográfica quanto subjetivamente.
A exposição já percorreu as cidades de São Luís (MA), Teresina (PI), Fortaleza (CE), Natal (RN), João Pessoa (PB) e Aracaju (SE), chegando agora ao Sudeste. Reúne 216 obras de 107 artistas, compondo um circuito de encontros e conversas em torno dos trabalhos expostos e dos principais temas presentes nas produções. Esses encontros contam com a participação de curadores locais, artistas e convidados, reforçando a importância dos espaços de diálogo, da roda de conversa e da troca como forças motrizes do pensamento artístico.
A coleção do Banco do Nordeste foi construída ao longo de sua trajetória institucional. Para uma instituição cuja função é contribuir para o desenvolvimento do Nordeste, do Espírito Santo e do Norte de Minas Gerais, a constituição de um acervo de arte surge como um desdobramento natural. Os caminhos que levaram à formação dessa coleção passaram por diferentes estratégias, nas quais prevaleceram as relações diretas com os artistas.
O público é apresentado, assim, às diferentes dinâmicas de produção locais e à potência dessa diversidade. Sem a pretensão de constituir um mapeamento ou esgotar a pesquisa, o projeto permanece aberto a novos desdobramentos, investigações e encontros que certamente ainda virão.
Jacqueline Medeiros
Curadora geral
Cecília Gallindo Cornélio
Curadora assistente