“Sempre sonhei com isso. Ter a força das lagartas. Ver asas surgindo do meu corpo de verme. Voar ao invés de arrastar-me pelo chão. Apoiar-me no ar e não sobre a pedra. Passar de uma existência a outra sem ter que morrer e renascer e, assim, revirar o mundo sem sequer o tocar. A mais perigosa forma de magia. A existência mais próxima da morte. A metamorfose”
Emanuele Coccia (Metaformoses)
Transmorfos são seres capazes de assumir diferentes contornos por meio da metamorfose e transfiguração, seja esse corpo animal, vegetal, humano ou sobrenatural. Tais criaturas habitam de maneira ampla mitologias africanas, indígenas, nórdicas e populares de distintas regiões, conectando-nos com as milhares de possibilidades vitais de existência, tão discutidas ao longo da história. Mais do que figuras do imaginário, essas formas ecoam cosmologias nas quais o corpo não é uma essência fixa, mas uma posição transitória — como propõe Eduardo Viveiros de Castro, ao pensar o perspectivismo ameríndio, no qual todos os seres compartilham uma condição de sujeito, diferenciando-se apenas pelos corpos que habitam. Não é sobre virar outro, mas revelar que já se é múltiplo.
A mostra coletiva “Ecologias do corpo” visa refletir e ampliar nosso pensamento e nossos horizontes sobre a transhumanidade e as possibilidades do ser a partir da obra de artistas contemporâneos brasileiros que discutem o tema em suas respectivas produções, sejam elas papel, pintura, escultura, vídeo, fotografia ou instalação. São eles Alex Červený, Barrão, Caroline Ricca Lee, Davi de Jesus do Nascimento, Gabriel Massan, Gustavo Caboco, Juno B, Manuela Costa Silva, Marina Woisky, Josi, Saulo Szabó e Selva de Carvalho.
A transhumanidade permeia a maneira como nos comunicamos com o mundo. Porque viver requer experimentar a ideia de ‘contágio’ como medida para nossas relações com outras espécies, culturas e tecnologias. Nesse sentido, como sugere Donna Haraway, não existimos como entidades isoladas, mas como seres que se constituem no “fazer-com” — em alianças e contaminações contínuas com o que nos cerca. Somos permanentemente afetados por diferentes formas de existência, vegetais, animais, minerais, inorgânicas e, inclusive, artificiais. Essa ecologia de corpos e seres, que compreendem humanos e não humanos, envolvem relações biológicas, políticas e de afeto, que nos contaminam e nos modificam constantemente, levando-nos a inúmeras mudanças, em como agimos, sentimos e vemos o mundo ao redor. É quando a transformação deixa de ser metáfora e passa a afetar o modo como o corpo se posiciona no mundo — abrindo fissuras no que antes parecia estável. Todos estamos aptos a nos transfigurarmos. Essa é a beleza da experiência vital compartilhada. Afinal, quem deseja a terrível limitação de viver apenas do que é passível de fazer sentido? É característica do ser animado buscar a profunda desordem orgânica que, no entanto, dá a pressentir uma ordem subjacente.
Discutir o transmorfismo na arte e na vida é falar também sobre liberdade. Liberdade de deixar-se ir para fora, mas principalmente para dentro de nós mesmos. Uma liberdade que não se afirma pela autonomia, mas pela capacidade de atravessar e ser atravessado — de reconhecer-se múltiplo, em relação, em constante metamorfose. É sustentar tal transformação, mesmo quando ela dissolve aquilo que pensávamos ser. Há, nesse gesto, uma ética do descontrole: permitir ao outro — humano ou não — existir em sua alteridade, ao mesmo tempo em que se aceita o risco de não coincidir consigo mesmo. Ser livre, nesse contexto, é abdicar da forma fixa, é consentir com o fluxo, é existir na borda entre o que já foi e o que ainda não tem nome. Como afirma Clarice Lispector em seu clássico Água Viva, “Escuta: eu te deixo ser, deixei-me ser então.”
Ana Carolina Ralston
curadora