“Micélio – entre o fim e começo de tudo” nos sugere um contínuo, e nesse sentido estar “entre” denota também movimento. Ninhos e cogumelos são dados como fios condutores de vidas possíveis em meio à clareiras e solos áridos das paisagens transformadas pela ação homem. Ninhos são refúgios, condições primeiras de vida, formas de início, assim como os cogumelos, que confabulam existências multiespécies, resistem em meio à terra arrasada e as colocam em regeneração. São formas que emergem de uma técnica milenar, onde o feltro, enquanto materialidade das obras, nos coloca a pensar a questão temporal.
Quais retornos são necessários para se fazer durar um saber? Quais retornos são necessários para se retomar práticas mais éticas de coabitação no mundo?
Apesar das formas intencionais, interessa à artista trabalhar as esculturas no que elas excedem o lugar de objeto, nos provocando uma reflexão em termos de uma ecologia política das coisas com suas materialidades que resistem. Ao contrário de uma lógica antropocêntrica do animismo, como podemos pensar nas redes que tais materialidades criam entre si e como elas nos atingem?
“Micélio” problematiza, tanto pela matéria, quanto pela forma, a sobrevivência nas ruínas do antropoceno, ou seja, os modos possíveis de vida que emergem nas atuais paisagem antropogênicas. É pelo elementar que a artista se expressa e nos convoca.