Claudia Hersz

Mostra sua cara
Curadoria Fernanda Lopes

Há muitas maneiras de dizer “Brasil”. O Brasil das margens plácidas nas aulas de História na escola, das histórias que nos contaram, e daquelas que vemos todos os dias pelas esquinas, em chamas. Das imagens que aprendemos a reconhecer, das músicas que atravessaram gerações, dos objetos que guardamos e daqueles que julgamos ter deixado para trás. Há o Brasil vivido no cotidiano e aquele imaginado inúmeras vezes como projeto de futuro – um futuro que nunca chegou. Em Mostra sua cara, Claudia Hersz se aproxima dessas diferentes possibilidades de país para construir e reconstruir suas imagens, deslocando-as, desmontando-as e fazendo-as aparecer novamente em outras formas.

Reunindo cerca de 140 obras produzidas entre 2018 e 2026, a exposição apresenta um panorama da produção recente da artista, em grande parte inédita. O que atravessa esse conjunto de objetos, instalações e vídeos não é uma representação única do Brasil, mas a insistência em voltar a ele por diferentes caminhos. A cartografia, elemento recorrente em sua produção, deixa de ser apenas uma forma de localizar um território para se tornar matéria de construção: aqui, o país é rasgado, espelhado, colado, costurado, projetado ou reorganizado.

Esse procedimento aproxima a história coletiva da experiência individual. Claudia se apropria de elementos que pertencem ao seu cotidiano — ou que dele fizeram parte, como os estojos de CD — e os transforma em matéria de trabalho. O que parece banal carrega histórias, afetos e marcas de um tempo. O mesmo acontece com objetos e técnicas que reaparecem quando já pareciam ultrapassados: o CD, o vinil, a máquina de costura. Em suas mãos, eles deixam de ser apenas suportes ou referências e passam a produzir novas relações entre passado, presente e futuro.

A música ocupa um lugar igualmente importante. As capas de discos reunidas na série Brasil mostra sua capa carregam consigo não apenas imagens, mas uma verdadeira discoteca, com canções, artistas e lembranças compartilhadas. Ao rasgá-las e reorganizá-las, Claudia produz novas geografias e outras possibilidades para o mapa do Brasil, mantendo visíveis apenas os olhos dos artistas. É um jogo de reconhecimento e estranhamento: vemos aquilo que já conhecemos, mas nunca exatamente da mesma maneira.

O próprio título da exposição, retirado de uma conhecida composição de Cazuza, anuncia esse movimento. O Brasil que aparece aqui não é estável nem definitivo. É um país feito de fragmentos, contradições, memórias e desejos; um território coletivo atravessado por experiências particulares.

É justamente isso que Claudia Hersz faz aqui com a imagem do Brasil e, há mais de duas décadas, com a própria ideia de arte: amplia, torce, esgarça, desloca e leva ao limite aquilo que acreditamos conhecer. Descobrimos, assim, novas maneiras de dizer seu nome — “com amor, ódio, urgência ou como se não fosse nada”.

Fernanda Lopes

Paço Imperial
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Sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h