Ao longo de quatro décadas, Daniel Senise tem investigado de maneira persistente as relações entre imagem, matéria e espaço. Representante da chamada Geração 80, marcada pelo processo de retomada da pintura no Brasil, Senise desenvolveu desde o final da década de 1980 um procedimento próprio, que passou a chamar de captura: a transferência de matérias presentes em superfícies como pisos de madeira ou paredes de concreto para tecidos, que servem de base para suas obras. Realizada uma única vez, em contato direto entre a superfície e o tecido, essa operação, que o artista também aproxima da ideia de sudário, faz com que os restos do mundo passem a ser apresentados como matéria exposta. Tal captura do espaço retém ainda temporalidades distintas de cada lugar de onde provém, resultando em superfícies misteriosas, entre a imagem e o sedimento.
A mostra marca o retorno do artista ao Paço Imperial após mais de três décadas de sua última exposição, reunindo mais de cinquenta trabalhos que abrangem mais de duas décadas de produção, dos anos 2000 ao momento presente, incluindo obras inéditas. Trata-se de oferecer ao público a oportunidade de acompanhar os
desdobramentos recentes de sua trajetória através de uma articulação que privilegia aproximações não cronológicas, evidenciando recorrências e deslocamentos no interior de sua produção. Afinal, ao longo desses anos, uma série de questões se desdobram e retornam. São transformadas as relações entre figura e fundo, a tensão entre controle e acaso, o interesse pelos espaços vazios ou em ruínas e a oscilação contínua entre presença e ausência.
Nos últimos anos, o artista tem estabelecido novas conexões com momentos anteriores de sua prática, ao acrescentar sobre os tecidos impressos materiais como betume, carvão e pó de ferro, o que faz com que surjam manchas misteriosas na composição; algo que já estava em seus trabalhos das décadas de 1980 e 1990.

Tal recorrência, longe de um retorno nostálgico, sugere antes uma obra que se dobra sobre si mesma. Diferentemente da pintura gestual ou expressionista, seu trabalho se constrói através de camadas sucessivas de intervenções que se acumulam no tempo. Ao sobrepor essas temporalidades, seja através da colagem de fragmentos, seja através da aplicação posterior de materiais que reagem com a superfície, sua obra institui um campo de negociação entre intenção e acidente, muitas vezes transformando história em espessura pictórica.