O que resta?
O que resta depois de uma ação?
Talvez reste pouco daquilo que se poderia chamar de documento: não há necessariamente um objeto a ser preservado, uma carta a ser guardada, uma assinatura ou um registro oficial capaz de assegurar que aquele acontecimento existiu. Mas resta o corpo. Resta a memória. Resta uma imagem, uma conversa, uma sensação. Resta um esmalte sobre uma unha, uma calcinha
que ocupou um espaço, um vestido usado, um gesto repetido, uma imagem,
um vídeo, uma história contada por alguém que esteve ali. Resta aquilo que a
performance deixa no corpo de quem a realiza e de quem a testemunha.
É nesse lugar que a prática da performance de Lyz Parayzo se aproxima do
arquivo. Ao longo de sua trajetória, nesses útlimos 10 anos, a artista construiu
uma linguagem performativa que transforma o corpo em território de disputa,
afirmação e invenção. Suas ações acontecem no tempo e desaparecem como
acontecimento, mas não deixam de existir. Elas continuam circulando através
de seus vestígios e das memórias que produzem.
Em Ephemera as Evidence: Introductory Notes to Queer Acts, José Esteban
Muñoz propõe pensar a efemeridade não como aquilo que simplesmente
desaparece, mas como aquilo que produz rastros e pode constituir uma forma
de evidência. Para Muñoz, performances e experiências queer podem sobre-
viver justamente através de seus resíduos: gestos, objetos, imagens, relatos e
memórias que escapam aos modos tradicionais de documentação. A perfor-
mance, nesse sentido, não precisa ser preservada integralmente para produzir
um arquivo. Seu desaparecimento também pode ser uma forma de permanên-
cia.
A sala Corpo-politico parte dessa possibilidade para reunir diferentes momen-
tos da prática performativa de Lyz Parayzo. Aqui, os trabalhos não são apenas
documentos de performances realizadas anteriormente. São também seus
sobreviventes. Cada objeto, imagem e vídeo funciona como um fragmento
capaz de ativar uma memória e reconstruir, ainda que parcialmente, aconteci-
mentos que ocorreram em outros tempos e lugares.
A Manicure Política é um exemplo dessa operação. O esmalte, a unha, o ges-
to da manicure e a conversa deixam de ser elementos cotidianos e passam
a constituir uma linguagem política. Ao deslocar a manicure para o espaço
da performance e da arte, Lyz transforma um gesto associado ao cuidado, à
feminilidade e à intimidade em ferramenta de encontro e afirmação. A linha
do tempo que acompanha o trabalho amplia essa dimensão: ela não apenas in-
forma sobre a trajetória da ação, mas permite que diferentes momentos de sua
existência sejam reativados dentro da exposição.
Algo semelhante acontece em Fato Indumento. O corpo que antes estava
presente na ação permanece agora através do objeto, do vídeo e das imagens
que testemunham sua realização. O que poderia ser entendido como resto
torna-se, aqui, uma forma de presença.
As Frottages operam de maneira ainda mais direta sobre essa ideia de vestígio.
Elas são marcas de uma passagem, registros produzidos pelo contato entre
corpos, superfícies e movimentos. Não reproduzem a performance; carregam
sua impressão. São arquivos que não pretendem reconstruir o acontecimento
em sua totalidade, mas preservar a possibilidade de imaginá-lo.
Essa lógica se torna especialmente evidente em Calcinhas Mágicas. A grande
estruturas de tecido que atravessam a sala são, ao mesmo tempo, objetos,
esculturas e vestígios de uma história. Em sua escala ampliada, a calcinha
deixa de ser apenas uma peça íntima e passa a ocupar o espaço institucional,
convidando o público a atravessá-la. Seu corpo pode ser percorrido e sua pre-
sença pode ser experimentada.
Mas existe outra história guardada dentro dessas calcinhas: a história da Bia,
sua criadora, e de uma prática construída no bairro da Lapa a partir da relação
com mulheres trans e travestis. O vídeo Bia Calcinhas Mágicas desloca o foco
da artista para uma outra mulher e cria espaço para que sua voz, sua memória
e sua trajetória também façam parte do arquivo.
Documentar Bia não significa apenas registrar a história de uma obra de Lyz.
Significa reconhecer que existem histórias fundamentais para a formação de
uma comunidade que dificilmente chegam aos arquivos oficiais. A história de
uma empreendedora, de uma mulher que criou uma peça de roupa capaz de
fazer outras mulheres se sentirem mais confortáveis, reconhecidas e perten-
centes aos próprios corpos. A calcinha, nesse contexto, deixa de ser apenas
objeto e torna-se testemunho de uma rede de cuidado.
É nesse deslocamento que podemos perceber uma transformação importante
na prática de Lyz. Se em trabalhos anteriores a violência e o confronto apare-
ciam como estratégias fundamentais de enfrentamento, obras como Manicure
Política e Calcinhas Mágicas introduzem outras formas de ação política: o
cuidado, a beleza, a valorização dos corpos dissidentes, a criação de espaços
de pertencimento e a transmissão de histórias entre mulheres.
Não se trata de abandonar o conflito, mas de ampliar as ferramentas da luta.
O corpo político também pode ser um corpo cuidado. Pode ser um corpo que
pinta as unhas, veste uma calcinha, inventa sua própria beleza, conta uma
história e reconhece outra mulher.
Ao ampliar a escala das calcinhas e colocá-las dentro do espaço expositivo,
Lyz também amplia o próprio arquivo. O que nasceu de uma relação entre
pessoas, corpos e territórios passa a ocupar uma instituição cultural. Mas, ao
entrar no museu, a obra não se transforma em um arquivo convencional. Pelo
contrário: ela questiona aquilo que entendemos como arquivo dentro de uma
instituição.
O arquivo não precisa ser apenas documento, papel, fotografia ou objeto
catalogado. Pode ser uma calcinha. Pode ser uma unha pintada. Pode ser uma
ação. Pode ser uma conversa, uma carta, uma fofoca, um segredo. Pode ser
uma história contada de uma mulher para outra. Pode ser aquilo que sobrevive
no corpo de quem participou ou testemunhou uma experiência.
Talvez seja justamente aí que as ações feitas por Lyz Parayzo encontre sua força
arquivística: na capacidade de fazer circular memórias que não foram original-
mente destinadas a permanecer. Seus vestígios são frágeis, mas são signifi-
cantes. Eles carregam histórias, afetos, relações e possibilidades de existência.
O que resta? A pergunta permanece aberta.
Resta o que a instituição não sabe necessariamente como catalogar. Como acol-
her, como contar. Resta o que não cabe inteiramente em uma vitrine, em uma
exposição. Resta o que continua sendo contado. Resta aquilo que alguém lembra.
Resta aquilo que outro corpo reconhece. Resta o que a gente ve e sente.
E, sobretudo, resta a possibilidade de que uma ação desaparecida com o tempo
continue produzindo efeitos no presente.
Danniel Tostes