Marcela Crosman

Como se escreve Marcela Crosman?
Curadoria Paulo Herkenhoff

Como se escreve Marcela Crosman?

Marcela Crosman se escreve com M de Malha (grid em inglês); com M de Matemática “Entre simulações matemáticas, realidades sintéticas e o tecnossurrealismo, a realidade foge das recomendações programadas e volta a ser processo. Somos hibridizações constantes, empurrando os limites da sensibilidade humana e do possível” (Crosman, 2026); com M de Multimedia, que é a articulação integrada de media dinâmicos como vídeo, áudio, animação, computação, que correspondem; com M de Materialidade do Signo, que, no caso de Marcela Crosman, seria material (mas também imaterial), como papel, aço, ligas metálicas, ímãs, bolachas de silício, cobre, entre outros; com M de Mulheres surrealistas “a Bienal de Veneza de 2022, Milk of Dreams, curada por Cecilia Alemani, cheia de mulheres surrealistas a frente do tempo, foi puro deleite também!” (Crosman, 2026); com M de Mutabilildade, porque a artista se identifica “com linhas como mutação, algo mais próximo de Donna Haraway, explorar o que vai dar.. com amorosidade entre espécies, humanidade e as civilizações”; com M de Marcela Crosman porque só Marcela Crosman produz Marcelas Crosmans autênticas e originais.

Marcela Crosman se escreve com A de Arte Sistêmica, compreendida por alguns como movimento artístico conceitual e tecnológico que, a partir da década de 1960, se assentou na cibernética e teoria dos sistemas; com A de Adorno (Theodor, 1903 – 1969), que com Max Horkheimer (1895 – 1973) compôs a Escola de Frankfurt, a “indústria cultural” sempre reiteram padrões com o objetivo de formar uma estética voltada para o consumismo, contra a qual a artista se opõe; com A de Antropogonia que atravessa o homem moderno do século XIX ao XXI que se construiu como uma teia heterotópica que esgarça continuamente; 

Marcela Crosman se escreve com R de Resistência, “contra o silêncio: não poder falar, opinar, pensar ou formular”, porque “isso significa não criar, não participar”; contra “o monopólio do discurso” e “a manipulação do medo da automação”, que paralisa e afasta os indivíduos da possibilidade de intervir criticamente nos sistemas que reorganizam a vida contemporânea; “contra os dualismos”, “o binarismo e os extremismos, que não reconhecem o outro e as gradações”; e, ainda, “contra o não reconhecimento da grandeza de estar viva neste tempo de expansão” (Crosman, 2026). Sua resistência pode também ser elétrica, oferecendo uma segunda leitura afirmativa e material, quando “participa dos circuitos, acessa 0s e 1s, liga e desliga luzes, estabelece conexões”; resistir para ela também “opera como circuito ativo, movimento circular entre a subversão e a proposição, energia que pode iluminar a desconhecida e temerosa Era da Inteligência Artificial”.

Marcela Crosman se escreve com C de Cibernética, âmbito em que se dá a produção contemporânea desta artista, foi desenvolvida por Norbert Wiener (1894 – 1964rm) a partir do livro Cybernetics (1945) em que observa características dos seres vivos que auto-regulam (“comportamentos homeostático”) e ainda sistemas de controle e transmissão de informação, mas já sob o uso da matemática (“todo conhecimento científico é matematizável, mas nem todo conhecimento matematizável é científico”, conforme Chaim Samuel Katz, Francisco Antonio Doria e Luiz Costa Lima; com C de Carioca porque nascida no Rio de Janeiro em 1983, onde vive, estudou e trabalha; com C de Curva  “Curvo a lógica binária dos circuitos integrados e uso a computação gráfica para me debruçar humanamente sobre as arquiteturas algorítmicas. Talvez seja apenas ali que possamos encontrar outras formas de compreender o mundo” (Crosman, 2026); com C de Circuitos porque Marcela Crosman mapeia com suas esculturas os fluxos de energia e de informação, tal como a pintura Red Cell with Conduit (1982, col. MoMA) de Peter Halley, que articula o espaço através de circuitos tecnológicos e corpos maquinais, e como a também pintura Caramurú (1992) de Antonio Dias.

Marcela Crosman se escreve com de E de Eclético; com E de Ecológica, porque a artista aggiorna a conclusão sintetizada por Oswald de Andrade num documento sobre a Antropofagia, que era seu programa para a emancipação da cultura moderna do Brasil: “Tudo é devoração. O homem na exploração parasitária do planeta, se entredevora. (…). Transfere contra o planeta, a devoração que o anima. Até que um dia, na decadência, o planeta o devora. Planeta e homem são a mesma coisa em oposição dialética” (manuscrito, acervo da Biblioteca Nacional); com E de Elegante, com E de Elemental; com E de Elétrico; com E de Eletrônico; com E de Emancipatório (vide o item Ecológica supra neste verbete); com E de Entropia, porque Crosman compreende o aforismo de Mario Pedrosa: “a arte é o que pode contra a entropia do mundo”; com E de Escultura “As minhas esculturas querem habitar este momento: aterrar a virtualidade, mas liberando-as da função. Elas percorrem a materialidade do processamento computacional por meio de ligas metálicas, ímãs, bolachas de silício e cobre” (Marcela Crosman); com E de Espantoso (ver Espanto Processamento computacional, um projeto de Marcela Crosman); com E de Especulativo (“Ao deslocar a computação do campo funcional para o especulativo, quero propor uma reflexão sobre esses sistemas ultra-complexos como novos modos de acesso à realidade” (Crosman, 2026); com E de Estético, como na necessária referência ao filósofo Immanuel Kant em Observações Sobre o Sentimento do Belo e do Sublime de 1764 e Crítica do julgamento de 1780 e que uma paradoxalmente kantiana e anti-kantinana Marcela Crosman abraça e repele porque Kant (a) retoma discussões de Longino sobre o sublime porque elas enunciam a hipótese de sequestro do olhar do observador por encantamento e (b) afirma em 1864 que a mulher não possui “percepções elevadas”… numa manifestação de misoginia setecentista europeia; com E de Ético; com E de Experiencial; com E de Experimental; com E de Exponencial; com E de Explorável “quero explorar a plasticidade do real, a coexistência entre diferentes inteligências e a abertura para dimensões ainda desconhecidas” (Crosman, 2026); com E de Exponencial; com E de Extático – “o Sublime conduz os ouvintes não à persuasão, mas ao êxtase”, afirmação atribuída a Longino (êxtase = ekplexis, que é um arrebatamento repentino e intenso que o sujeito fica suspenso de seu condição de normalidade, gerando uma sensação de choque e grandeza inatingível, podendo ser por maravilhamento ou por terribilidade” – assim alguns objetos de Marcela Crosman provocam o sentimento de sublimidade dos internautas mais argutos na confrontação de modelos cibernéticos visíveis.

Marcela Crosman se escreve com L de Le Parc (Julio, 1928 – 1926), o artista argentino que foi um praticante da Op art e da arte cinética, cuja exposição retrospectiva “Julio Le Parc: Light. Colour. Action.” marcou a artista; com L de Latim em pó (obra de Caetano L. Galindo, 2022, com título retirado da letra de Caetano Veloso, 1984), que é uma navegação pelo português do Brasil ou a Lusamérica de Caetano, histórico, árabe, indígena (“todo um Atlântico de diferenças”, conforme Galindo), kriol, “pretoguês” (conceito estabelecido por Lélia Gonzales [1935 – 1994], mas que também guardava a língua dos santos), que Caetano Veloso (Língua, considerou que a poesia está para a prosa, assim como o amor está para amizade e que Crosman entende ser hoje invadido pelo inglês da língua cibernética; com L de Lacan (Jacques-Marie Émile 1901 – 1981), o psicanalista que legou uma topologia, que não se deixa apreender pela lógica cartesiana, como no caso toro (como no caso de esculturas de Tunga e Marcela Crosman com seu trabalho Quanta (2023) cujo entendimento é aqui balizado por passagem fundamental de seu texto Função e campo da palavra e da linguagem, (1953): “ao querer dar uma representação intuitiva a isto [‘grupo relacional que a lógica simbólica designa topologicamente como um anel’] parece que, mais que à superficialidade de uma zona, é à forma tridimensional de um toro que seria preciso recorrer, já que sua exterioridade periférica e sua exterioridade central constituem uma só região” – trata-se do “reviramento” – e que “o consciente e o inconsciente são suportados por um mundo tórico’ e, a partir disso, Lacan discute o campo de realidade, o corte de fantasia, o separar-juntar um sujeito desejante e um objeto, a neurose, do sem fronteira, do ponto no infinito.

Marcela Crosman se escreve com A de Arte Sistêmica, compreendida por alguns como movimento artístico conceitual e tecnológico que, a partir da década de 1960, se assentou na cibernética e na teoria dos sistemas; com A de Theodor Adorno, que, com Max Horkheimer (ambos compuseram a Escola de Frankfurt), a “indústria cultural” sempre reiteram padrões com o objetivo de formar uma estética voltada para o consumismo, contra a qual a artista se opõe; com A de Antropogonia que atravessa o homem moderno do século XIX ao XXI que se construiu como uma teia heterotópica que esgarça continuamente. Marcela Crosman se escreve com A de Artimanhas Algorítmicas porque “a aventura plástica proposta pela artista leva a pensar na liberdade da matemática no estabelecimento de abstrações da natureza ou na fixação de entidades dotadas de propriedade por meio de axiomas” (Agnaldo Farias, 2024); com A de Aporia, étimo proveniente do grego aporos (a = sem + poros = passagem) que se aplica modernamente como impasse, dificuldade de ordem racional, que não se consegue explicar… assim é que a arte aporética de Crosman não procura oferecer chaves de leitura porque situa o observador em deambulações em torno dos significados de suas estruturas e articulação de partes, ou como Jacques Derrida indaga no início de seu ensaio Aporias (1993): “Limites da verdade… como se pode atravessar as fronteiras da verdade”, em sua antevisão das fake news do mundo digital sem fronteiras. 

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Marcela Crosman se escreve com C de Contemporâneo que, segundo Giorgio Agamben, “é aquilo que recebe diretamente na casa a centelha que proveem de seu tempo, tal como Marcela Crosman detecta as trevas da redes sociais com suas fake news, lacrações; com C de Computação, que, para Crosman, “deixou de operar como ferramenta, para se tornar infraestrutura cognitiva e condição cultural. Neste contexto, o humano precisa de expansão perceptiva da experiência (devaneio de Bachelard) para não entrar em colapso; tremendo é o novo paradigma; com C de Contrato Social da Computação, que se altera continuamente a partir das inovações tecnológicas, da Internet e da web, da extrema expansão universal do acesso dos indivíduos a seu uso no século XXI que interlaça internautas globalmente, mas que também constitui aquele contrato social em base de perjúrio fake news, do Google e da globalização, enfim, da moldagem do homo computerus ou homo ciberneticus que define o homo contemporanus.

Marcela Crosman se escreve com R de Realidade, pois para a artista “a realidade foge das recomendações programadas e volta a ser processo. Somos hibridizações constantes, empurrando os limites da sensibilidade humana e do possível” (2026); Marcela Crosman se escreve com O de Ocularcentrismo; com O de Ontologia, posto ser do mister da artista tramar dimensões ontológicas da cibernética, com a politização da história (vide Fredric Jameson, no verbete  “Sempre historicizar!” infra); Marcela Crosman se escreve com S de “Sempre historicizar!”, que é aqui a convocação do crítico marxista Fredric Jameson (1934 – 2024) em seu ensaio The political unconscious – narrative as a socially symbolic act (1981) e que Marcela Crosman lastreia em sua referência a outra convocação, agora de Walter Benjamin (1892 – 1940) em Teses Sobre o Conceito de História (1940): escrever a história a contrapelo do uso universalmente prevalecente como das redes sociais como lugar da verdade, malgrado as fake news, da inteligência artificial, do imperialismo digital; com S Sistemas Complexo: Da unidade lógica para a inteligência distribuída (2023); com S de Software o angustiante desafio experimentado por Marcela Crosman e tantos outros artistas contemporâneos: “à medida que o mundo cada vez mais unido através de uma densa rede interconectada de computadores, a questão central de nossa era passa a ser tecnológica: como a liberdade pode ser mantida em um mundo cada vez menos conduzido por humanos e cada vez mais guiado por softwares?” (Harry Alpin).

Marcela Crosman se escreve com M de Merleau-Ponty (Maurice, 1908 – 1961), filósofo autor de Fenomenologia da percepção (1945), onde afirma que “o mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo”, e de O olho e o espírito (L’Œil et l’esprit, 1961), no qual trata da experiência do corpo vivido (“le corps vécu”) e, cintando Paul Éluard, afirma que o pintor empresta seu corpo à pintura – em paráfrase desta asserção, considere-se que Marcela Crosman empresta sua ossatura à estrutura de seus relevos, tais como nas peças Processa (2023) mas também seu espírito à instância cibernética deles; com M de Moles (Abraham, 1920-1962), o engenheiro francês que pensou a passagem do objeto (o computador, no caso de Marcela Crosman) de sua condição de objeto técnico físico-operacional para uma condição de objeto que opera na dimensão estética e simbólica, visuais tridimensionais, à semelhança de Waldemar Cordeiro que representou bidimensionalmente axiomas como Ideias Visíveis através de pinturas e acrílico desenhado por incisão; com A de Aço Inox como um signo material de seus objetos – “A subjetividade toda viva nas formas, na matéria”, proclama Crosman; com A de Assombro, a reação de surpresa que a artista provoca em seu público na obra Espanto Processamento computacional;  Marcela Crosman se escreve com A de Algoritmo generativo, que é um dispositivo eletrônico, ou melhor sistema de computador projetado para criar novos conteúdos originais (textos, imagens, áudio, músicas, código de software, etc.) com base em padrões que ele aprendeu ao estudar grandes volumes de dados anteriores.

Marcela Crosman se escreve com N de Não-humano problema histórico presente na trajetória do artista francês Pierre Huyghe, que, para Marcela “questiona a relação entre o humano e o não humano, e concebe suas obras como ficções especulativas das quais emergem outras modalidades de mundo”, para Huyghe, “as ficções são veículos para acessar o possível ou o impossível, o que poderia ser ou o que não poderia ser” – interesse de Crosman que aqui resvala para Marcel Duchamp: “Posssible: (a figuração do possível (não como o oposto do impossível nem como relacionado ao provável, nem como subordinado ao likely”) e para Derrida: “escrever não é apenas pensar o livro leibniziano como possibilidade impossível. Possibilidade impossível, limite propriamente designado por Mallamé” (in Différence et repetition, 1968); e que para Cecília Alemani estamos no “momento histórico [2022] em que a sobrevivência da espécie está ameaçada, mas também sintetizam muitas outras indagações que permeiam as ciências, as artes e os mitos de nossa época. Como está se transformando a definição de humano? … Quais são nossas responsabilidades para com o planeta, outras pessoas e outras formas de vida?” (Alemani, 2022), com N de Nietzsche (Friedrich, 1844 – 1900), o filósofo oitocentista da metafísica da subjetividade, que questionou os fundamentos da moralidade ocidental, com ideias como (a) do Übermensch ou o Super-homem que cria seus próprios valores e (b) do Wille zur Macht ou a vontade de potência, que é a força motriz primordial que move os seres humanos em direção à realização, crescimento, a superação, a autodeterminação – e não seria essa a força primordial que move Marcela Crosman em sua trajetória de artista? 

Paulo Herkenhoff

Em agosto de 2026

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