Marcelo Silveira

O que sustenta
curadoria Felipe Scovino

O que aproxima as obras dessa exposição é uma noção de desarranjo. Algo parece estar fora da ordem natural. Mas, para notar essa estranheza, esse padrão incomum das coisas ou dos gestos, é preciso estar com os olhos atentos e experienciar o tempo sob outro regime que não o cronológico. Um tempo que dura a partir da forma como conduzimos as nossas vontades, desejos e curiosidades.

A paisagem suspensa de estruturas em madeira organizada por Marcelo Silveira tem uma história pregressa, ou constitutiva, antes de ser esse desenho no espaço. V.A.R.A.S, título da instalação e sigla indefinida, mas que nomeia uma atribuição popular da madeira, começa por ações que são rotineiras na trajetória do artista: a coleta e o acúmulo. A origem da matéria dessa obra é múltipla: são bases de cama, corrimãos de escada, entre tantas outras superfícies irregulares e alongadas encontradas na rua ou em antiquários. Atento ao seu entorno e concebendo uma poética em que o objeto encontrado (objet trouvé) é muitas vezes um condicionante do seu trabalho, Silveira começa uma nova etapa após a coleta da madeira. Ele une as madeiras de origens distintas e, em seguida, lixa suas superfícies de forma a criar estruturas alongadas e, muitas vezes, com curvaturas acentuadas. Depois de polidas, tornam-se esculturas que alçam voo, colocam-se como riscos, como gestos expressivos ou linhas traçadas no ar.

Essa visão fluida da matéria orgânica, que acaba constituindo um léxico sobre diversas espécies endógenas da flora brasileira, do cedro ao mogno, passando pelo pau-brasil e pela cajacatinga, que são a estrutura da obra, advém, portanto, de uma experiência de encaixes e associações, aproximando o descarte da madeira à utilização dessa matéria enquanto componente do mobiliário burguês e símbolo de distinção. V.A.R.A.S não é só híbrida em sua composição, mas reveladora de narrativas sobre modos de existência da sociedade. Mas o que estou chamando de desarranjo, por conta desse estado de hibridez, não pode ser confundido com negação, mas sim como um estado muito próprio de invenção. O artista cria realidades insólitas, ordena componentes e trabalha por adição de unidades e histórias, usando a geometria ou certa pulsão construtiva de maneira direta ou indireta em sua metodologia.

Toda a exposição é permeada pelo som da expressão “tudo certo”, com diferentes entonações, vindo do vinil/obra homônimo (2018). A afirmação cambaleante, por conta da variação que vai do riso ao choro, dessa frase, que profere a certeza do bem-estar, cria uma atmosfera incerta, na qual as certezas são postas em dúvida. V.A.R.A.S, ao cortar obliquamente o espaço dessa sala, acaba também por reorganizá-lo. Outras experiências de percepção são trazidas. O acúmulo dessas esculturas, ou, se preferir, instalação, caminha junto com uma permissividade; isto é, elas não se colocam enquanto um bloqueio ao corpo do espectador ou à mirada que é lançada sobre o lugar, pois simplesmente pousaram sobre o espaço. A madeira e sua forma delgada promovem a suspensão do peso e, por conseguinte, um regime de lentidão do tempo. Tudo parece desacelerar. A teatralidade das formas conduz à imagem da vastidão, mas também a uma experiência de frear o ritmo vertiginoso: passamos a nos dedicar a observar os detalhes, as formas orgânicas e mesmo belas, diria hipnóticas, desse grande “manguezal”.

Novelos também parte de um mistério. O que são esses fios de linho acumulados, ao mesmo tempo organizados e dispersos pelo chão do espaço? O ato compulsivo de colecionar e condensar matéria, como dito, é algo rotineiro na obra de Marcelo Silveira. Estamos diante de um arquivo moldado a partir de verbos de ação: separar, limpar, enrolar, juntar, aglomerar, apinhar, concentrar, espalhar. O acúmulo de novelos, sua multiplicidade, sugere o procedimento de um arquivista ou colecionador de um objeto que tem uma função específica, mas que aqui ganha a aura de instalação. Obra próxima a Novelos, tanto conceitualmente quanto simbolicamente, é A Grande Tela (produzida em 2012, mas hoje destruída), composta por 40 redomas, cada uma contendo um emaranhado de fios de linho que ocupavam todo o volume disponível. A relação mais direta, e jocosa, era com a (morte da) pintura. Ao desfiar a tela e inutilizá-la, guardando em seguida os seus restos nesses recipientes, Silveira elabora o signo da ruína sem perder a ironia.

Novelos também é um gesto de compressão e agrupamento, e seu formato e material, mesmo que tangencialmente, apontam para uma condição da pintura. Sua origem está na coleta de fragmentos desse linho que estavam localizados no interior do laboratório desativado de uma indústria de tecelagem. Escanteados, sujos, qualificados como restos naquele momento, Silveira passa a dar novo significado ao material. Ao limpar fio a fio, circulando e enrolando-o, compondo uma organização para o linho, o brilho retornou. Percebemos, portanto, processos semelhantes entre V.A.R.A.S e Novelos: em seu processo de coleta e arquivo de materiais rejeitados ou colocados à disposição do público, independentemente da razão, o artista transmite um senso de vivacidade àquilo que era da ordem do refugo. Reorganiza suas estruturas, constitui novos formatos e escalas, constrói novas camadas de sensibilidade. Ademais, ambas as obras têm uma ambiguidade bem particular: podem ser vistas como peças únicas ou fragmentos, mas é o conjunto de cada uma delas que promove uma força, um sentido mesmo de coletividade. O equilíbrio flutuante do conjunto das V.A.R.A.S promove também um contraponto, como uma força telúrica, com os 300 novelos espalhados pelo chão. São frações de matéria que, reunidas em sua pulsão de vida, constituem essa paisagem que estamos a investigar. Está contido nessas obras o sentido metafórico do movimento.

Se nas V.A.R.A.S a dinâmica é dada pelo intervalo entre as esculturas e, claro, pelas associações visuais com asas estendidas em voo, nos Novelos a circularidade do próprio material induz à metáfora da transitoriedade. Os carretéis de linho são índices da gestualidade, mas também da medição de gestos e de um tempo próprio. Trata-se de capturar a singularidade de um tempo e de um espaço que, por conta da nossa pressa pragmática, insistem em escapar. Já a circularidade, em tom ambíguo, da mesma frase sendo expressa pelo pai do artista, no final da vida, quando já havia sido diagnosticado com Alzheimer, em Tudo Certo, associa o tempo a uma dinâmica obsessiva e alucinante.

O método de Marcelo Silveira de organizar as coisas do mundo pela via do desarranjo acaba por instituir deslocamentos mais experimentais, buscando articulações que envolvem práticas menos convencionais e mais contaminadas com a vida. Sua obra nos ensina a olhar para o mundo de forma menos utilitária, transformar um objeto “inútil” em algo de necessidade vital, retomar os vínculos com a artesania e aprender a se mover e criar seu próprio regime de temporalidade.


Felipe Scovino

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