Água, lama, sangue, seiva e céu. Niura Bellavinha transita entre os essenciais. Nesta exposição, que apresenta sua produção recente, a artista compartilha suas investigações sobre a pintura como um campo ampliado de gestos, matérias, memórias e conexões cósmicas.
Toró é tempestade. Uma massa líquida que desce do céu com a força violenta da natureza. Como uma corruptela do tupi antigo ´ytororoma – jorro d’água, o termo traz a sabedoria das línguas ancestrais que usavam o som para descrever aspectos da vida. Toró não é só água, também é o barulho que alerta e acorda os sentidos. Retirado do nome de uma das obras expostas, aqui ele é síntese de operações que fazem parte do universo criativo de Niura e símbolo de uma ação artística que ao longo das décadas abre veios, percorre rastros e se reafirma como jorro existencial.
A forma, tantas vezes limitada pelas linhas e contornos, se expande em uma espécie de concretismo liquefeito. Através dos contrastes, o branco revela o negativo do gesto, o vazio existencial. Fluxos e condensações se sustentam na vitalidade da matéria: rejeitos da mineração, poeira de meteoritos, pigmentos vegetais, pedras-canga. A conexão entre o orgânico e o mineral, a carne e a pedra, equivale a um ato sacrificial que remonta a antigas cosmogonias. Abrir a terra e retirar-lhe o sangue coagulado em metal.
Ao ocupar esses espaços expositivos, os trabalhos parecem ecoar a torrente dos tempos. Histórias oficializadas e memórias silenciadas se esbarram entre véus e sudários. Tudo é fragmento, do gesto visceral ao pó cósmico soprado sobre a tela. Das Minas Gerais ao insondável universo, a força criativa de Niura Bellavinha é aguaceiro que não se pode conter. É explosão vital, visceral e espiritual. É toró.
Viviane Matesco, Rafael Peixoto e Marcus Lontra